Marloch, o desconstruidor de mitos
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Poucas pessoas teriam a tranquilidade de chamar um astro da literatura nacional como Euclides da Cunha de paranóico e potencial assassino. Com excessão do jornalista e escritor Leandro Marloch, autor do polêmico “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”.
Mas entenda que o alvo do jornalista não é desmerecer o romancista carioca. Na realidade, a personalidade sombria de Euclides da Cunha é só um dos exemplos da coletânea de dados históricos revirados por Marloch no baú da história e que foram omitidos ao longo dos anos por conveniência.
O objetivo do jornalista não é atacar uma ou outra figura histórica, a ideia geral, segundo ele, é provocar uma pane na filosofia do politicamente correto instaurado no País, que blinda personagens e fatos em nome de um “bom-mocismo” comportalmental.
Novos escorregões éticos dos heróis nacionais e excessos no julgamento de criminosos da nossa história são trazidos à tona nas 368 páginas da versão ampliada do polêmico livro “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”, lançado este mês pela editora LeYa. Nele, o jornalista procura romper com dogmas e realçar o lado obscuro de figuras aclamadas e revelar que mocinhos também agem como vilões e vice-versa.
Sobre o autor de “Os Sertões”, o jornalista conta que ele é um dos principais suspeitos da morte do filho recém-nascido da sua esposa, Anna Assis, com o seu conhecido amante Dilermando Assis. “Quando ele voltou de uma expedição do Acre depois de três anos, tentando reeditar um novo ‘Sertões’, ele encontrou sua mulher grávida. Não disse nada. Quando Ana teve a criança, ele a retirou dos braços dela e escondeu. Não se sabe o que aconteceu, o fato é que três dias depois o bebê morreu”, conta Marloch. O jornalista lembra que o caso sequer foi investigado em virtude do prestígio do romancista e já homem público.
Esse é o fio condutor do novo trabalho do jornalista, que vendeu mais de 100 mil cópias. “Na primeira versão do livro, detonei muitos personagens que as pessoas falam bem. Nesse nova versão, tentei falar bem de pessoas execradas pela história”, comentou o jornalista. No livro que chega às bancas com o preço sugerido de R$ 39,90, estão na alça de mira do escritor simbolos blindadas pelo caráter humanístico, como Zumbi dos Palmares e figuras altamente controversas, como o bandeirante Raposo Tavares.
“O problema é que as pessoas gostam de querer apontar culpados ou inocentes, mas o Zumbi, segundo relato de capitães holandeses, provavelmente tinha escravos. Alguns homens de confiança dele e parentes eram saudados de joelhos pela população do quilombo”, comenta. O autor aponta que os grupos liderados por Zumbi saquevam vilas e sequestravam mulheres e tomavam negros como escravos. “Eles apenas reproduziam um modelo de sociedade na qual eles viviam no Congo e na Angola. O Zumbi não fez nada de errado dentro do contexto histórico da sua época, assim como os senhores de escravos também não”, opinou.
BONS MOÇOS
Apesar da contradição relatada Marloch, o movimento negro e historiadores conseguiram alçar Zumbi ao status líder do abolicionismo. Ao mesmo tempo, o ideário bandeirante ruiu com o passar dos anos em virtude das atrocidades cometidas pelos desbravadores contra à população indígena e também contra os escravos.
Para o autor, não é bem assim. “Existem cartas internas trocadas entre os jesuítas mostrando que havia um certo exageros nos relatos de extermínio, os bandeirantes não era tão crueis assim. Na realidade, os jesuítas confabulavam para que as autoridades europeias se lançassem contra os paulistas”, pontuou. O próprio Raposo Tavares foi um grande desbravador que teria perambulado por três anos, passando pelo atual Mato Grosso, chegando na Bolívia, prosseguindo até os Andes, parando no Pará e voltando para São Paulo. “Ele contribui para interiorização do Brasil, desbravando o interior”, sublinhou. A América Latina e personagens conhecidos na história mundial são os próximos alvos dos jornalista.
<b>Desnudando a América Latina </b>
Com previsão de ser lançado em agosto, o livro “Guia Politicamente Incorreto da História da América Latina” é próximo projeto do jornalista. O material está sendo elaborado há mais ou menos um ano, em parceria com o jornalista campineiro Eduardo Teixeira. “Ele escreve para a revista Veja sobre os países latinos-americanos. Ele conhece tudo e viajou para todos os países. Um dia a gente comentou sobre os discursos de vítima do Evo Morales. Achamos que não é por aí. O povo indígena já protagonizou muitas coisas. Aí pintou a ideia de fazer esse livro”, explicou.
A dupla pretende mostrar que os povos astecas, andinos e populações indígenas não viviam no Éden como é imaginado hoje. Segundo o jornalista, havia muita miséria e conflitos que levaram à derrocada das sociedades. “O meu trabalho não é neutro, não é acadêmico, às vezes sinto falta da crítica dos historiadores”, disse. O autor ressalta que o resultado do seu trabalho é uma contraposição de estudiosos, como Caio Prado Júnior e Florestan Fernandes. “Eles criaram esse imaginário que o Brasil é uma sucessão de desgraças. A nova história brasileira contada a partir da década de 90 por outros historiadores parte de um outro ponto de vista”, pontuou.
