Redes sociais não é sinônimo de jornalismo
Comparar a produção de conteúdo da rede social que ocorreu no episódio do Shopping Pátio Limeira como substância jornalística acabada é um delírio academicista de quem ainda não compreende a dimensão dessa ferramenta ou se transvestiu de charlatanismo filosófico.
O jornalismo na internet apura em moto-contínuo e dá resposta à queima roupa ao acontecimento de interesse público. Ponto. Não está situado na zona de conforto da TV ou do jornal impresso que irão noticiar o episódio, no caso de Limeira, 24h depois do acontecimento.
O conteúdo publicado na rede social é um ponto de partida do jornalismo (coleta de dados, apuração). A agiliade e profusão com que correm esses dados na esfera virtual só demonstra a ávidez das pessoas por informações.
É uma ilação perversa alegar que os produtores virtuais de informação não zelam pela precisão dos fatos e fazem chutes. Todos que participam de uma coleta de dados como essa fazem um esforço coletivo (organizado ou não) para construir um cenário próximo ao real. Isso se chama jornalismo cidadão.
Foi ele quem se destacou na cobertura do desabamento do teto do Shopping Pátio de Limeira, pois foi um catalisador de fatos, percepções e opiniões sobre o acontecimento em desenvolvimento. A mídia formal foi letárgica, não integrou suas plataformas de comunicação, talvez por ignorar como fazê-lo, não tê-las ou por não valorizar os canais de comunicação da internet.
Todo conjunto de dados reunidos na web no caso do shopping seria um ponto de partida para construção da notícia do desabamento, que se esperava, ser melhor apurada, redigida e contextualizada pelos veículos de comunicação.
Jornalistas ‘dogmáticos’ ignoram o conceito e o fazer do jornalismo colaborativo. Preferem embutir conceitos sofistas sobre teorias da comunicação para deslegitimar um movimento rico via facebook, twitter, orkut, blogs, sites, msn que replicava em tempo real, na internet, o episódio trágico do shoppping.
É evidente que alguma imprecisão pode ocorrer, na inexistência de dados oficiais, é necessário a recorrer a fontes secundárias, algo legítimo no jornalismo, enquanto não há confirmação de órgãos oficiais sobre vítimas. Isso é uma óbviedade trivial, mas que é condenada por puristas de ocasião.
No livro-reportagem “O Vulto das Torres”, o jornalista norte-americano, Lawrence Wright, lembra que a mídia emitiu pareceres esdrúxulos sobre o que se passava no WTC. A partir do segundo impacto na outra torre, é que os jornalistas que cobriam ao vivo o episódio compreenderam que se tratava de um ataque terrorista. O atentado foi coberto ao vivo. Quem não lembra das imprecisões? O mesmo aconteceu com o resgate dos mineiros chilenos (…)
Não se trata de tolerar informações equivocadas, se trata de estabelecer o que é jornalismo on line, jornalismo colaborativo e a tranquilidade de narrar tudo o que aconteceu passado 800 mil anos depois do episódio e criticar o esforço da construção dos fatos durante os acontecimentos. Aí, até eu pago de mago da comunicação. Sem cometer “barriga” nenhuma. É cômodo fazer o que houve aqui. Os jornais esperam amanhecer o dia para informar os seus leitores. A mídia velha ainda sublinha suas velhas manias esquizofrênicas.
Cobrar precisão na descrição de um episódio, mesmo que aparentemente ele esteja encerrado, é cometer falsidade ideológica.