Bota uma flor aí no meu pescoço. Ficou bom?
Coloca um cigarro na minha boca, hmmm. Curtiu?
Que tal aquele chapéu Panamá. Deixa ver, pô, ficou maneiro.
Meus olhos estão bem? Não há suspeita de desamor, não, né?
Massa, então vamos lá. Vamos para a vida!!
Atualizações Recentes RSS Hide threads | Atalhos de teclado
-
paulocorrea
-
Du caralho a Do Carmo
paulocorrea
Do Carmo é linda. Acho que teria 52 anos e cheira maravilhosamente a cigarro de quinta. O cabelo dela é amarelado, mas a tinta arrefeceu há muito, e os fios assumem uma tonalidade de cobre, que se iguala a cor dos dentes dela. Uma dentição grande, uniforme e encantadora.
Quando ela canta, a voz perpassa entre seus dentes enormes e parece fazer silvar um cântico embriagante que penetra na noite feito um sêmen divino que goteja sua vivacidade nos ouvidos dos mais incautos.
Ela molha a garganta de cerveja, sem desalinhar o microfone do queixo, o ombro esquerdo e direito dão o balanço daquele corpo negro e esguio, os pés fingem saltar do chão, mas apenas se levantam numa marchinha suave que não se compara a firmeza da voz daquela mulher.
O som reverbera pela noite na roda de sambo do Portelinha, na zona sul de Limeira, tradicionalíssimo ponto de roda de samba da cidade. Do Carmo logo parece ser uma discípula de Leci Brandão. É inevitável a comparação, mas Do Carmo não se prende, não se acorrenta, fala de Carlos Cachaça, Noel Rosa, Jovelinha, Candeia, Paulinho da Viola e já tem estrada suficiente para não entrar em qualquer roda de samba.
Lamenta muito que a nova geração de proto-sambista, ou para ser mais preciso, dos pagodeiros, sequer tenham ouvido Elis Regina cantar. Não tenham dito a curiosidade e nem o empenho de estudar o samba. “Não é para qualquer um não”, diz. E a gente lembrou daquele trecho do Vinicius de Morais “fazer samba não é contar piada/quem faz samba assim/não é de nada”.
A noite foi agradável do lado de Do Carmo que durante a semana costura, faz artesanato para sobreviver e à noite engravida a alma da gente com sua voz-terra. O samba salva.
-
quadros brasileiros
paulocorrea
Alfredo Volpi é um daqueles artistas que você teima em não conhecer por uma preguiça invensível de abrir um livro e investigar. Se os pixels da tela já jorram uma sensação encantadora, imagina a explosão desse azul, vermelho, branco a poucos centímetros do seu nariz? Grande fachada festiva carrega uma sensação de deserto e vida de modo simultâneo. Mas me interessa muito a peça A solidão (ou solidão) do Iberê Camargo (pareceu íntimo isso, né? Do Iberê…). É sombria, nervosa e multifocal. Remete muito as burcas utilizadas pelas mulheres que vivem sob o júdice do fundamentalismo islâmico. Você pregaria um prego na parede e sustentaria esse quadro na sala de estar? Quem sabe na de jantar? Eu sim, é artístico, tenebroso e teimosamente angelical. Na recepção você poderia escalar o Pancetti. Mar grande já é um nome grandioso e esse quadro traz uma brasilidade, uma luz, um colorido que remete ao um idealismo de país. Ou de vida. Olhar perdidamente o mar é um dos meus ideais de vida.
- volpi, grande fachada festiva
-
Para Neda
paulocorrea
Quem apertou o gatilho contra Neda, aquela estudante iraniana que protestava por um país livre quando foi alvejada por tiros de metralhadora, acionou o fim de uma época de horror no Irã (?!).
Dia 27 completou três meses do assassinato brutal dela. Aposto que você não lembra disso, mas se comoveu com as imagens da tevê e em seguida foi dormir para acordar bem cedo para trabalhar no dia seguinte. Era só mais uma tragédia. A vida seguiu e segue até agora. Assim como tem de ser.
Mas não custa lembrar que o assassinato brutal de Neda se transformou num argumento vivo para vida futura de toda uma geração de jovens iranianos.
E o que isso muda na tua vida? Nada, mas é determinante para o que está por vir. Tu que queres um mundo melhor para teus filhos, não quererias, certamente, que um pusta como Ahmadinejad estivesse por ai dando às cartas do outro lado do planeta. Correto?
Assim como não se quer e não é seguro permitir tipos como Gilmar Mendes, a pastora Sônia, os Marinhos, Garotinho, Zé Dirceu, HUgo Chaves e outros transitar sem coleiras pelas ruas.
O fato é que no dia seguinte da morte de Neda, a mão assassina erguia a xícara com seu chá e mastigava torradas tranquilamente enquanto via de modo impassível seu império sangrar silenciosamente.
Isso eu pensei e escrevi no último dia 27 de junho. Mas não foi bem por ai que a linha da história foi delineada.
A questão que fica é se Neda morta alterou os rumos do estado das coisas. E Neda viva?
É preciso lembrar que ela não deu a vida para mutilar o severo regime dos aiatolás. Ela não teve escolha. Neda foi aniquilada. Ela não era um guerreira de Deus e sim da razão.
Por isso, ela merece viver na memória, não como mártir, mas como uma reafirmação do valor inestimável da liberdade e do direito à vida. Não como uma marca de jeans ou estampa de camisa. Neda precisa se respeitar e não mistificada.
-
quase ninguém no bar
paulocorrea
<<<Quase ninguém no bar, melhor assim. Nada para lembrar. Nem um pedaço do que fui eu quando não tinha você para doer no profundo e indivisível melhor de mim.
Tudo bem, não eram só coisas escuras antes e quiçá será adiante.
Havia todos aqueles tons que não têm nome zingrando pela linha da vida. No pós-você, havia um colorido infantil que esmaeceu porque tinha que ser.
No bar quase vazio, melhor assim, nem eu e você estávamos por lá quando te sequestraram e apagaram da minha memória.
Mas deixa estar.
Que tu sejas uma anamnese nos meus escombros. Olha, quase ninguém no bar, acho que é culpa dessa tempestade de navalhas que caí firme lá fora. Vai ver que ninguém gosta de se arranhar. Vou esperar o tempo abrir aqui dentro, no indivisível melhor de mim, para partir <<<
-
paulocorrea
Vejo fantasmas
porque desisti
de usar óculos -
paulocorrea
Nem, nem vou dar as caras
pros caras pintadas
nem vou dar pinceladas
em caras fechadas
nem abarrotar minha
cama de mulheres inexatas
Nem serei perdulário
se eleito for,
farei como fez Jesus Cristo
serei esquartejado, mas viverei
em porta-retratados
ameaçando cada um
com a possibilidade de um porvir -
paulocorrea
A mulher ouvia atenta a palavra daquele homem. Ambos estavam sentados na mesa metálica enferrujada de um trailer de cachorro quente na avenida Fabrício Vampré, em Limeira. Era noite, embora não fosse tarde, mas também não era demasiado cedo, haja vista que o vai e vem dos veículos já se ia em marcha lenta há muito.
Ele falava sentado, ereto, com ar semi-alarmista, sem fitá-la, contudo, sabidamente se dirigindo a mulher. As mãos abertas no ar, uma camisa azul de botão, um anel de casamento brilhante. Só pode se tratar de um tema seríssimo.
Também sentada, ela sustenta os ombros curvados, o olhar grande para não perder de vista qualquer palavra. Ela encadeava um verbete a outro com delicadeza e precisão. Construia simultaneamente a frase e sua lógica. Tudo para que a compreensão fosse plena. O cabelo bem penteado, lápis preto nos olhos puxados e redondos, e a boca semi aberta.
A mulher buscava o entendimento do assunto que certamente era complexo. Ela pensava ao mesmo tempo em ser ágil, que ao final da fala dele, ou quando houvesse uma pausa de respiração, ela pudesse trazer um argumento útil ou reavivar uma dúvida, para evitar que o homem cometesse um equívoco por uma convicção cega.
Relacionamento.
-
paulocorrea
Indes e confirmais aquele que te perguntares, pois a curiosidade é a besta fera corroedora das vísceras desde os mais castos homens até impuros, que já passaram por esta orbe, que sim, que se trata do meu filho, sem sopro de vida, dentro desse dessa caixa de papelão.
Autorizo-te a acatar todas as mensagens de condolências, sejam elas formais, sinceras ou fortuítas. Não tomai como ofensa gravíssima, o descuido de quem não o fizer, afinal, nem todos sentiram a quentura letal das asas do maligno sobre à vida.
Desconhecem o terremoto que abala o país de dentro, existente em cada um de nós, quando recai tamanha desgraça sobre uma família.
Peço-te que não haja demora, mas também não sejais ligeiro demasiadamente no translado. Querido como o era, há que se considerar quanta sorte de gente aguarda com coração apertado a passagem do cortejo para acenar para o meu filho, num gesto belo, porém inútil, haja visto que já não está mais acorrentado em nosso plano.
Vai, pois tu serás eu, eu serei representado por ti, olhai como olho, pisais sobre as pedras como piso eu, fiqueis compungido como se deveras fosse um filho teu sequestrado do ventre da tua mulher, antes mesmo que fosse parido. Sem chance ao menos de lutar.
Lembra de não haver tempo para o cansaço. Fome também não tereis. Água não te servirão. Estareis morto neste calvário sacro. Serás minha aura incandescente em toda invisível parte. Não esqueça em fazer isto em tua memória tua, querido filho. Enterra-te e retorne são e salvo.
-
paulocorrea
Sempre me demoro a olhar Marina como se reconhecesse ali minha versão feminina. Teria esses olhos portugueses, essa cor preta mascada e lábio índio. Deixaria revolto meu cabelo crespo, exarcebando uma africanidade sedutora.
Tivesse vindo eu ao mundo como uma fêmea certamente teria a invencibilidade das ribeirinhas do alto Amazonas. Uma iluminação incandescente nascida do cio da terra e do leito do rio.
De um modo geral às mulheres em todas as civilizações captam essa força redentora para salvar nações de guerras, de ditaduras infame ou da fome.
O papel dos homens é dificultar a tarefa das descendentes de Eva por tolices, ciúmes e machismo descarados.
Mas Marina escancara um falso triunfalismo caboclo. O conceito não se sustenta de modo harmônico dos pés à cabeça do território brasileiro. Não unifica. Não canaliza.
A burguesia enxerga em Marina mais o rosto da emprega doméstica – que se humilha e é humilhada todos os dias – do que uma iminente estadista.
A contribuição de Marina é romper essa pobreza de espírito e mostrar outros caminhos para mulheres brasileiras. A bandeira dos direitos humanos que ela sustenta antecede a discussão mínima entre ser ou não ser criacionista.
O certo e não o duvidoso, é que meu País precisa mais de homens e mulheres com ombridade de Marina.