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  • paulocorrea 2:42 am em December 28, 2009 Link Permanente | Responder  

    Casa negra 

    Eu acordei com uma casa nova naquela manhã gélida. Estava com enxada nos ombros, cabeça rente, olhos implacáveis. A luz do sol descaia suave sobre as ondulações do teto da minha casa negra. Os raios me atingiam como um abraço cândido. Eram insuficientes para aplacar o frio. Mas o calor do meu coração era demasiadamente forte e fértil; satisfaziam-me. Aquele arremedo de lar era espacialmente curto, rude até… porém, era um sonho infinito. Não maior do que minha sina.

    Imagem: Denny Cesare

    A silhuta dessa mulher na fotografia sou eu. Dócil, amável, forte e miserável. Eu derrubo cercas para aplacar quem tem fome e sede. Não por messianismo, mas por justiça social. Somos a semente levantada do chão. Fazê-mo-lo pela espada já que a suavidade não faz revoluções. É a nossa foice afiada e pacificadora contra o poderio da grana suja dos canaviais. O dinheiro escravagista e assassino do passado contra nós, os herdeiros das milhares de almas africanas que morreram na terra roxa dos campos brasileiros. Eu sou muitos. E, infelizmente, outros estão por vir e ainda herdarão essa chaga.

    Sem prato de comida, sem camisa, sem os 32 dentes na boca, sem primário ou colegial. A elite nos despreza por isso. Somos chamados de “gente feia”, somos excluídos da escola, da saúde, da moradia e nos querem belos, cultos e comportados. Mas não seremos! Temos dignidade e coragem ímpar para viver.

    Eu era mulheres, homens, idosos, crianças naquela manhã aprazível em Americana (SP). Eu era a sociedade brasileira. Eu era o povo. Eu sou o povo deste País que não se acovarda. Aquele que se convencionou a chamar de marginal, vagabundo, oportunista, invasor, ladrão, desocupado, quando a gente se rebela contra a imposição da miséria. Desculpa, mas não aceitamos.

    O Estado repressor fere com bala de borracha, bombas, cacetetes, cavalos… A classe média, sentada na poltrona, com a barriga cheia e cabeça vazia, aplaude as imagens da tevê. Se pudesse ligar no 0800, pediriam para nos levar ao “paredão”. Não o que elimina um participante de uma competição, mas o que extermina, elimina, o que leva ao holocausto.

    Mas lutamos por nosso País, mesmo que parte dele nos rejeite.

     
  • paulocorrea 12:36 pm em December 23, 2009 Link Permanente | Responder  

    Aconchego quente 

    Abandonou a delicadeza para ser um sussurro breve, um semi-espamo, seguido de um sorriso abundante. A culpa foi de um sopro de palavras ao pé do ouvido que desmoronou o que se edificou para ser derrubado. Estremeceu a alma de gelo e pôs em combustão o que era escuro e frio. As mãos não pestanejaram: enjaularam o corpo em um abraço assustadoramente afetivo. Uma prisão libertadora. Uma aconchego quente.

     
  • paulocorrea 10:29 pm em December 21, 2009 Link Permanente | Responder  

    Imperativos 

    Calada!

    Corada!

    Reta e molhada.

    Vira-te como um fel. Retrata-te. Peça e não obtenha.

    Graças ao olhar manco que te dou.

    Reduza e conduza, para o lugar que inexiste, esse tesão.

    Feitiche. Perdão.

    Curto é mundo. Longo é pacato.

    Ahahahaha eu volto, pra existir!

     
  • paulocorrea 4:21 pm em December 17, 2009 Link Permanente | Responder  

    A irmã de Lázaro 

    Maria

    Jesus juntou as mãos em cocha e mergulhou no pote. Sentiu frescor no rosto. Repetiu três vezes o gesto e humedeceu mais ainda os cabelos. O sol era fraco, pois o dia principiava. Estava em Betânia, na casa do amigo Lázaro, um dia depois de obrar sua ressurreição da casa dos mortos. Deixara estar com amigo quase a madrugada inteira, sorvendo vinho, comendo pão e peixe na casa da irmã dele, Marta.

    O desgosto que abalara sua alma ao ter notícia da morte de Lázaro havia se extinguido. Agradeceu ao Pai pelo amor que lhe tinha e por tê-lo permitido trazer o amigo de volta à vida quatro dias depois de sepulto. Maria, aquela que havia lavado seus pés com lágrimas grossas e enxugado eles com suas longas medeixas, na casa do princípe fariseu, preparava a refeição da manhã.

    Marta, sua irmã, dormia, cansada de tanta alegria e prodígio. Jesus fazia poucos movimentos para não acordar os irmãos. Saiu da casa que pousara e buscou o deserto mais próximo para orar. Voltando, avistara de longe seus discípulos procurando por ele. Não deram cabo de encontrá-lo.

    - Que a paz esteja convosco!

    Foram pregar, então, na sinagoga. Uma turba o acompanhava com curiosidade e espanto. Jesus ia cansado, mesmo amando todo o povo. A cada passo, clamava alguém por cura, por salvação e remissão dos pecados.

    Sentia falta de João Batista, que veio antes dele para batizar toda a gente que na perdição se encontrava. Amava Lázaro e João; o primeiro pela cândura, o segundo pela fé e pela força. Os 12 que havia escolhido, eram bons homens, embora rude, incrédulos e careciam de perspicácia na maioria das vezes.

    “Menos Maria, irmã de Lázaro”, se surpreendeu falando em voz baixa ao chegar perto da sinagoga.

     
  • paulocorrea 5:37 pm em December 16, 2009 Link Permanente | Responder  

    Guardai-vos e acautelai-vos de toda a avareza, porque a vida de cada um consiste na abundância das coisas que possui.

    Citação
     
  • paulocorrea 5:33 pm em December 16, 2009 Link Permanente | Responder  

    Marta, marta. Tu andas muito inquieta e te embaraças com o cuidar de muitas coisas. Entretanto, só uma coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não será tirada

    Citação
     
  • paulocorrea 9:12 pm em December 15, 2009 Link Permanente | Responder  

    Brasília do samba 

    A Claúdia foi muito prestativa em ensinar o caminho para a Asa Norte. Por sorte, ela morava por lá e ficou fácil saber como chegar ao meu destino. Bate-papo rápido dentro do ônibus chegando em Brasília e uma rápida empatia entre nós. Bom, acabamos indo tomar uma cerva antes de cada um seguir seu caminho. Acabamos eu, a carioca de espírito, mas brasiliense, Flávia, e a amiga sambista Dani, indo parar no Tartaruga, uma bela casa de samba. E o batuque e a cervejinha rolou à noite e quase adentrou a madrugada. Mas eu tinha que ir, afinal, tinha compromisso pela manhã.

    Brasília começou de um modo afável e terminou também de um modo muito gentil comigo. Após cumprir minhas obrigações, fiz uma breve parada num shopping da capital do País para comprar uma lembrança para as novas amigas.

    Em seguida, um bar excelente perto de onde consegui abrigo. Conheci mais cariocas. Como sempre, um papo sempre debochado e inteligente. Brasília é noturna e boemia. Por incrível que possa parecer, consegui encontrar até uma carioca que já morou nesta cidade na qual me encontro.

    Pela manhã, um rolê no Congresso. Câmera na mão, sol a pino e desejo de conhecer gente nova. Vendo a esplanada dos ministérios fiquei triste. Lembrei da cena em que Jesus Cristo expulsa vendilhões do templo. Brasília ocupada por camelos, suja e decadente. Desorganizada. Lamento pela capital do Brasil estar tão depreciada e sem vigor.

    Caminhando pelo tapete azul do Senado Federal, o plenário estava vazio. O senador pernambucano Marco Marciel (DEM) apresentava um projeto de lei incluindo novos nomes ao programa de memória dos heróis nacionais, sob o olhar desinteressado dos pouquíssimo colegas. Estava quase dormindo quando Silene se achegou. Uma mineira, moradora da região metropolitana de BH, e com uma luz própria.

    Emparelhamos numa conversa e decidimos deixar o tapete azulado do Senado para seguir o verde, da Câmara Federal.

    Os prédios cinquentões são muito calmos e com aspecto cinquentão. O curioso é que todo aquele protocolo se esvai quando chega à noite e o samba é imperial.

     
  • paulocorrea 12:51 pm em December 8, 2009 Link Permanente | Responder  

    Uno 

    Quando eu chego perto de ti, desmonto.
    Basta você me olhar com desinteresse desmedido
    Foge-me as forças
    Acaba comigo
    com teu leve desamor
    É só quando te afastas é que sinto

    capaz de obrar qualquer milagre
    Mas quando estais junto
    sou mero
    só sou força
    nessa contradição abissal
    que é te amar
    em via única

     
  • paulocorrea 12:00 pm em December 1, 2009 Link Permanente | Responder  

    Os “Arruda” que sacudiram 2009 

    Eles sacudiram 2009, cada um com seu estilo, ou falta dele.
    Geyse Arruda, a loira da Uniban, por tirar do armário a nossa face facista.
    Ele, o governador do DF, José Arruda, por mostrar nossa vileza.

     
  • paulocorrea 2:56 pm em November 28, 2009 Link Permanente | Responder  

    Diálogo sobre a cegueira 

    Crédito: Denny Cesare

    - Para onde vamos?

    - Para a eternidade.

    - Estamos no caminho certo?

    - Não existe certo ou errado. Devemos seguir, sempre.

    - Será que já não passamos da eternidade?

    - Eu creio que não.

    - Como você tem tanta certeza?

    - Me disseram que a eternidade é ao lado da Tekka Drinks (…) e de qualquer forma, não tenho pressa em chegar.

    - Nem eu…. Como o tempo está agradável, não é? Obrigado por ter vindo.

    - Sigamos =)

     
    • alex 2:31 am em dezembro 5, 2009 Link Permanente | Responder

      grande paulo, boa essa foto, hein. vamos por o assunto em dia. abraço, alex rosa.

      • paulocorrea 5:17 pm em dezembro 9, 2009 Link Permanente | Responder

        Graaaaande Alex!! Foto massa do meu brother Deny! Cara, quando vieres para Limeira dê um toque. abraços!

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