Casa negra
Eu acordei com uma casa nova naquela manhã gélida. Estava com enxada nos ombros, cabeça rente, olhos implacáveis. A luz do sol descaia suave sobre as ondulações do teto da minha casa negra. Os raios me atingiam como um abraço cândido. Eram insuficientes para aplacar o frio. Mas o calor do meu coração era demasiadamente forte e fértil; satisfaziam-me. Aquele arremedo de lar era espacialmente curto, rude até… porém, era um sonho infinito. Não maior do que minha sina.
A silhuta dessa mulher na fotografia sou eu. Dócil, amável, forte e miserável. Eu derrubo cercas para aplacar quem tem fome e sede. Não por messianismo, mas por justiça social. Somos a semente levantada do chão. Fazê-mo-lo pela espada já que a suavidade não faz revoluções. É a nossa foice afiada e pacificadora contra o poderio da grana suja dos canaviais. O dinheiro escravagista e assassino do passado contra nós, os herdeiros das milhares de almas africanas que morreram na terra roxa dos campos brasileiros. Eu sou muitos. E, infelizmente, outros estão por vir e ainda herdarão essa chaga.
Sem prato de comida, sem camisa, sem os 32 dentes na boca, sem primário ou colegial. A elite nos despreza por isso. Somos chamados de “gente feia”, somos excluídos da escola, da saúde, da moradia e nos querem belos, cultos e comportados. Mas não seremos! Temos dignidade e coragem ímpar para viver.
Eu era mulheres, homens, idosos, crianças naquela manhã aprazível em Americana (SP). Eu era a sociedade brasileira. Eu era o povo. Eu sou o povo deste País que não se acovarda. Aquele que se convencionou a chamar de marginal, vagabundo, oportunista, invasor, ladrão, desocupado, quando a gente se rebela contra a imposição da miséria. Desculpa, mas não aceitamos.
O Estado repressor fere com bala de borracha, bombas, cacetetes, cavalos… A classe média, sentada na poltrona, com a barriga cheia e cabeça vazia, aplaude as imagens da tevê. Se pudesse ligar no 0800, pediriam para nos levar ao “paredão”. Não o que elimina um participante de uma competição, mas o que extermina, elimina, o que leva ao holocausto.
Mas lutamos por nosso País, mesmo que parte dele nos rejeite.





alex 2:31 am em dezembro 5, 2009 Link Permanente |
grande paulo, boa essa foto, hein. vamos por o assunto em dia. abraço, alex rosa.
paulocorrea 5:17 pm em dezembro 9, 2009 Link Permanente |
Graaaaande Alex!! Foto massa do meu brother Deny! Cara, quando vieres para Limeira dê um toque. abraços!