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  • paulocorrea 11:51 pm em November 21, 2009 Link Permanente | Responder  

    A mulher da moldura e eu 

    Leila negra me apetece e vivo na janela dos olhos dela.
    Quando passo debaixo da moldura, onde ela me espera cada vez que volto da construção, sempre me lembro de atirar um sorriso malemolente pr’ela.
    Preta Leila se debruça sobre a moldura e respira fundo.
    Do ar que ela solta dos pulmões encantados, nascem milhões de redemoinhos que
    se despedaçam ao tocar no terreno cálido da tarde.
    Mais adiante, apanho o ônibus e vou pensando nela até chegar no meu barraco. Vou pensando.
    Como se ela me existisse.

     
  • paulocorrea 2:36 pm em November 14, 2009 Link Permanente | Responder  

    Solta o sol Pancetti
    e deixa as coisas se iluminarem.

     
  • paulocorrea 2:03 am em November 13, 2009 Link Permanente | Responder  

    Dona Aparecida 

    Iberê camargo, a solidão

    A Solidão, do Iberê Camargo

    Você certamente não conhece a dona Aparecida. Eu também não conheci, mas vou te dizer: ela tinha 84 anos, sim, tinha, já não tem mais, já que a vida foi lhe roubada. Ela morava no Jardim Amanda, um bairro hiperpopuloso, na cidade de Hortolândia, localizado na região metropolitana de Campinas, um dos núcleos geoeconômicos mais rico do País (Mas poderia ser em qualquer lugar do nosso território).

    Motivo pelo qual a vida dela foi cessada? Ela precisou do sistema único de saúde brasileiro. Buscou atendimento por estar com leve dor de cabeça e entrou andando e conversando com parentes na UBS (Unidade Básica de Saúde) do bairro. Num prazo de menos de 40 horas já estava sendo sepultada no cemitério Park de Hortolândia.

    A família alega que a idosa recebeu doses intravenosas muito acima do recomendável pelo médico de plantao. O fato é que após tomar o medicamento, em coma, ela foi transferida para o hospital da cidade e em seguida para o hospital estadual em Sumaré. Mas o quadro era irreversível. Dona Aparecida entrou com uma leve dor de cabeça e saiu dentro de um caixão do hospital.

    Dona Aparecida é mais uma vítima anônima da saúde pública brasileira que desaparece em meio a números falaciosos de investimentos no setor divulgados pelo poder público. É simplesmente inacreditável o quanto a incompetência e a corrupção levam milhares de pessoas à morte nos hospitais.

    É vital que a vida siga. Contudo, não é possível respeitar mais pessoas que não se atentem a essa desgraçada sorte onde são lançados milhares de brasileiros.

    Quando encontro pessoas que optam por ignorar tamanha infortúnio sinto mágoa. Principalmente quando elas estão num posto onde é possível lançar um holofote para esse drama, mas se calam ora por uma ignorância induzida ora por desamor e por uma frieza aristocrática. ‘Ah, mas isso é assim mesmo’, ‘É nunca vai mudar’ e outros frases lugares comuns.

    Fico perplexo quando eles optam por fazer uma arte obtusa nos palcos, quando optam por um escrita higiênica nos livros, quando optam por uma aula anti-reflexiva, quando optam por um jornalismo de exaltação, quando optam por uma arquitetura individualista, quando optam por pelo sossego das suas vidas de classe média alta que têm um plano de saúde particular e não correm o risco de desaparecer num dia em que precisarem de atendimento médico na rede pública como aconteceu com dona Aparecida.

     
  • paulocorrea 12:07 pm em November 12, 2009 Link Permanente | Responder  

    Geyse escarra na minha cara como minha geração é cafona. Assalta meus argumentos sofistas sobre o futuro promissor dessa juventude. A saia é demasiadamente curta, mas a pequenez com que a elite (a jovem elite) paulista sentencia a vida é ainda mais escandalosa. Cabe uma paráfrase do Caetano Veloso DA década de 60: se a gente se preocupasse tanto com política quanto se preocupa com estética, estaríamos feitos.

     
  • paulocorrea 11:26 am em November 5, 2009 Link Permanente | Responder  

    Bota uma flor aí no meu pescoço. Ficou bom?
    Coloca um cigarro na minha boca, hmmm. Curtiu?
    Que tal aquele chapéu Panamá. Deixa ver! Pô.. ficou maneiro!!!
    Meus olhos estão bem? Não há suspeita de desamor, não, né?
    Massa, então vamos lá. Vamos para a vida!!

     
  • paulocorrea 4:28 pm em November 2, 2009 Link Permanente | Responder  

    Du caralho a Do Carmo 

    Do Carmo é linda. Acho que teria 52 anos e cheira maravilhosamente a cigarro de quinta. O cabelo dela é amarelado, mas a tinta arrefeceu há muito, e os fios assumem uma tonalidade de cobre, que se iguala a cor dos dentes dela. Uma dentição grande, uniforme e encantadora.

    Quando ela canta, a voz perpassa entre seus dentes enormes e parece fazer silvar um cântico embriagante que penetra na noite feito um sêmen divino que goteja sua vivacidade nos ouvidos dos mais incautos.

    Ela molha a garganta de cerveja, sem desalinhar o microfone do queixo, o ombro esquerdo e direito dão o balanço daquele corpo negro e esguio, os pés fingem saltar do chão, mas apenas se levantam numa marchinha suave que não se compara a firmeza da voz daquela mulher.

    O som reverbera pela noite na roda de sambo do Portelinha, na zona sul de Limeira, tradicionalíssimo ponto de roda de samba da cidade. Do Carmo logo parece ser uma discípula de Leci Brandão. É inevitável a comparação, mas Do Carmo não se prende, não se acorrenta, fala de Carlos Cachaça, Noel Rosa, Jovelinha, Candeia, Paulinho da Viola e já tem estrada suficiente para não entrar em qualquer roda de samba.

    Lamenta muito que a nova geração de proto-sambista, ou para ser mais preciso, dos pagodeiros, sequer tenham ouvido Elis Regina cantar. Não tenham dito a curiosidade e nem o empenho de estudar o samba. “Não é para qualquer um não”, diz. E a gente lembrou daquele trecho do Vinicius de Morais “fazer samba não é contar piada/quem faz samba assim/não é de nada”.

    A noite foi agradável do lado de Do Carmo que durante a semana costura, faz artesanato para sobreviver e à noite engravida a alma da gente com sua voz-terra. O samba salva.

     
  • paulocorrea 7:31 pm em November 1, 2009 Link Permanente | Responder  

    quadros brasileiros 

    Alfredo Volpi é um daqueles artistas que você teima em não conhecer por uma preguiça invensível de abrir um livro e investigar. Se os pixels da tela já jorram uma sensação encantadora, imagina a explosão desse azul, vermelho, branco a poucos centímetros do seu nariz? Grande fachada festiva carrega uma sensação de deserto e vida de modo simultâneo. Mas me interessa muito a peça A solidão (ou solidão) do Iberê Camargo (pareceu íntimo isso, né? Do Iberê…). É sombria, nervosa e multifocal. Remete muito as burcas utilizadas pelas mulheres que vivem sob o júdice do fundamentalismo islâmico. Você pregaria um prego na parede e sustentaria esse quadro na sala de estar? Quem sabe na de jantar? Eu sim, é artístico, tenebroso e teimosamente angelical. Na recepção você poderia escalar o Pancetti. Mar grande já é um nome grandioso e esse quadro traz uma brasilidade, uma luz, um colorido que remete ao um idealismo de país. Ou de vida. Olhar perdidamente o mar é um dos meus ideais de vida.

    alfredo volpi, grande fachada festiva

    volpi, grande fachada festiva
     
  • paulocorrea 1:32 pm em October 31, 2009 Link Permanente | Responder  

    Para Neda 

    Quem apertou o gatilho contra Neda, aquela estudante iraniana que protestava por um país livre quando foi alvejada por tiros de metralhadora, acionou o fim de uma época de horror no Irã (?!).

    Dia 27 completou três meses do assassinato brutal dela. Aposto que você não lembra disso, mas se comoveu com as imagens da tevê e em seguida foi dormir para acordar bem cedo para trabalhar no dia seguinte. Era só mais uma tragédia. A vida seguiu e segue até agora. Assim como tem de ser.

    Mas não custa lembrar que o assassinato brutal de Neda se transformou num argumento vivo para vida futura de toda uma geração de jovens iranianos.

    E o que isso muda na tua vida? Nada, mas é determinante para o que está por vir. Tu que queres um mundo melhor para teus filhos, não quererias, certamente, que um pusta como Ahmadinejad estivesse por ai dando às cartas do outro lado do planeta. Correto?

    Assim como não se quer e não é seguro permitir tipos como Gilmar Mendes, a pastora Sônia, os Marinhos, Garotinho, Zé Dirceu, HUgo Chaves e outros transitar sem coleiras pelas ruas.

    O fato é que no dia seguinte da morte de Neda, a mão assassina erguia a xícara com seu chá e mastigava torradas tranquilamente enquanto via de modo impassível seu império sangrar silenciosamente.

    Isso eu pensei e escrevi no último dia 27 de junho. Mas não foi bem por ai que a linha da história foi delineada.

    A questão que fica é se Neda morta alterou os rumos do estado das coisas. E Neda viva?

    É preciso lembrar que ela não deu a vida para mutilar o severo regime dos aiatolás. Ela não teve escolha. Neda foi aniquilada. Ela não era um guerreira de Deus e sim da razão.

    Por isso, ela merece viver na memória, não como mártir, mas como uma reafirmação do valor inestimável da liberdade e do direito à vida. Não como uma marca de jeans ou estampa de camisa. Neda precisa se respeitar e não mistificada.

     
  • paulocorrea 4:07 pm em October 18, 2009 Link Permanente | Responder  

    quase ninguém no bar 

    <<<Quase ninguém no bar, melhor assim. Nada para lembrar. Nem um pedaço do que fui eu quando não tinha você para doer no profundo e indivisível melhor de mim.

    Tudo bem, não eram só coisas escuras antes e quiçá será adiante.

    Havia todos aqueles tons que não têm nome zingrando pela linha da vida. No pós-você, havia um colorido infantil que esmaeceu porque tinha que ser.

    No bar quase vazio, melhor assim, nem eu e você estávamos por lá quando te sequestraram e apagaram da minha memória.

    Mas deixa estar.

    Que tu sejas uma anamnese nos meus escombros. Olha, quase ninguém no bar, acho que é culpa dessa tempestade de navalhas que caí firme lá fora. Vai ver que ninguém gosta de se arranhar. Vou esperar o tempo abrir aqui dentro, no indivisível melhor de mim, para partir <<<

     
  • paulocorrea 12:44 pm em October 6, 2009 Link Permanente | Responder  

    Vejo fantasmas
    porque desisti
    de usar óculos

     
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